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As irmãs que inventaram o "made in Italy"

Da aristocracia europeia a Jacqueline Kennedy, nenhuma diva resistiu ao corte e acabamento da grife italiana Sorelle Fontana

Solange Cavalcante, de Roma, especial para o iG Moda |

Solange Cavalcante, de Roma, especial para o iG Moda
"Nós inventamos o made in Italy", garante a sra. Micol Fontana, costureira de 97 anos
Via Sebastianello, 6, na charmosa Piazza di Spagna, Roma. Subir ao primeiro andar desse endereço, onde funcionou a sartoria das irmãs Fontana, é como voltar aos anos dourados das divas do cinema e do jet set internacional. O local é repleto de manequins com modelos feitos para Audrey Hepburn, Ava Gardner e Elisabeth Taylor, para citar somente algumas das personalidades que vestiram as criações da mais antiga casa de moda de Roma.

Micol Fontana, última das três irmãs Fontana ainda viva, chega para a entrevista com contagiante simpatia. Veste um terninho violeta – cor típica de Parma, sua terra natal – e um encorpado colar de pérolas de três voltas. “Estive no Brasil, mas não me lembro quando”, diz. O esquecimento é justificável. Em 8 de novembro ela fará 97 anos e, às vezes, esquece mesmo as coisas. No entanto, não interrompe sua rotina de ir à fundação todos os dias “para trabalhar”.

A Fondazione Micol Fontana nasceu em 1994, para cuidar do patrimônio histórico e cultural das irmãs Zoe, Giovanna e Micol. A entidade mantém 300 modelos, mais de 2 mil figurinos, jornais, fotografias e acessórios, além de realizar seminários para estudantes e interessados em moda. Uma volta pelo antigo ateliê faz o visitante caminhar entre modelos usados por Anita Ekberg, Grace de Mônaco e Audrey Hepburn – e lá estão vestidos, fotos e figurinos, para comprovar. Uma coleção de bonecas mostra os famosos vestidos em miniatura.

“Não gosto que me chamem de estilista, não entendo o que esse termo quer dizer”, vai avisando. “Prefiro ser chamada de costureira, como três gerações antes de mim. Nas veias de nossa família não corre sangue, correm alfinetes”, brinca. A fama das Fontana acaba de merecer a devida atenção da tevê estatal Rai, que fez uma minissérie sobre Micol e suas irmãs. A assistente Luisella Fontana e a sra. Micol dão uma olhada nas revistas que anunciam a produção com grande destaque. “Eu não era tão bonita assim”, observa a costureira com modéstia, elogiando a atriz que faz o seu papel.

Sobre a elegância dos italianos no vestir, Micol Fontana tem uma explicação: “Está no nosso sangue, como a música está no sangue dos brasileiros. É natural, quando se vive circundado de obras de arte, pela luz de Florença e pelas cores de Roma. Nascemos sob a estrela do belo”.

Algum conselho para jovens criadores brasileiros? “Sim, estudar a cultura da moda, como nos seminários que temos aqui na Fondazione. Nosso estilo é feito de elegância, classe e rigor no acabamento. Seria interessante juntar essa técnica à criatividade e às tradições brasileiras. Acredito nas pequenas cooperativas, onde costurar artesanalmente pode ser tanto arte como fonte de renda”.

Alinhavando a História

“Nós inventamos o made in Italy”, declara a sra. Micol. A história atesta. Conta-se que Zoe, a mais velha das irmãs Fontana, fez as malas, aos 20 anos, para tentar a sorte em uma cidade grande. Da pequena Traversetolo, em Parma, teria pegado um trem, ao acaso, deixando a sorte decidir qual seria seu destino. “Em Milão, se fazia dinheiro; em Roma, poesia”, relembra Micol. O trem em que Zoe embarcou levava à Roma, cidade não somente da poesia, mas da aristocracia italiana.

Antes, porém, de ir para a capital e criar a primeira casa de moda de Roma para vestir princesas e estrelas de Holywood, Zoe, Micol e Giovanna circularam pelos melhores ateliês de Milão e Paris, durante os anos 30. Nesse período, elas estudaram e trabalharam entre as sartorias de Nicola Zecca, Aurora Battilocchi e a prestigiosa maison de Coco Chanel, um bom começo para quem não tinha outra opção, na cidade natal, além de ser a mulher do médico.

Mas foi somente em 1943 que as Fontana se encontraram em Roma para montar um ateliê. Não somente o mundo estava em guerra, mas a guerra partia dali mesmo, com Benito Mussolini aliado à Alemanha de Hitler. As três irmãs costumavam trocar barras de calça por comida, e a pouca comida por tecido, no mercado negro, para continuar costurando. Ou isso ou procurar tecido numa loja de lustres, onde o proprietário armazenava toda a sorte de mercadoria, devido à escassez da guerra. “Enfrentamos duas guerras, meu pai como militar. Durante a primeira, minha mãe esperava que os uniformes de papai ficassem velhos, para depois cortar e costurar roupas para nós.”

Em 1935, Mussolini criou um conselho de moda para garantir um vestuário 100% nacional, restringindo a moda que chegava da França e da Inglaterra. As revistas femininas foram proibidas de publicar fotos de modelos magras, já que o ideal fascista era o de uma mulher “saudável e capaz de gerar filhos”. Após “constatar cientificamente” que o esporte fazia mal ao corpo da mulher, o médico e senador fascista Nicola Pende estabeleceu que as medidas justas para as manequins de moda deveriam ser entre 1,56 m e 1,60 m de altura, para 55 kg e 60 kg de peso (basta comparar com as da top Gisele Bundchen, de 1,79 m e 54 kg).

As casas de moda recebiam frequentes visitas da polícia para garantir que a matéria-prima e os desenhos utilizados fossem italianos. Caso contrário, as multas eram altas. Apesar das pressões do regime, os criadores preferiam comprar figurinos em Paris e imitar os fanceses Jean Patou e Chanel. Nas sartorias, os desenhos eram mantidos bem escondidos do controle policial. O regime chegou ao cúmulo de organizar um dicionário italiano para a moda, em que os estrangeirismos foram substituídos por termos italianizados. Assim, nada de “tailleur”, “smoking” ou “ziper”, modificados para “completo a giaca”, “giacchetta da sera” e “cerniera a lampo”, respectivamente.

Mas quando o fascismo mergulhou o país na miséria e na fome, foi o talento que prevaleceu, e não o regime. A falta de matéria-prima levou Salvatore Ferragamo, por exemplo, a improvisar materiais, criando sapatos de crochê, de celofane, tamancos de cortiça para Carmem Miranda e centenas de modelos para atrizes como Greta Garbo e Marilyn Monroe (mas essa é outra história).

“Nossa primeira Relações Públicas foi a zeladora do prédio onde, no começo, dividíamos um cômodo mobiliado”, conta Micol Fontana. “Ela fazia a propaganda na vizinhança, dizia que éramos boas moças e que costurávamos bem”. Com o fim da guerra, a primeira cliente importante foi Gioia Marconi, filha do inventor do rádio, com o pedido de um vestido de noiva. Satisfeitíssima, Gioia ajudou a atrair as princesas das famílias Colonna, Torlonia, Borghese e da casa Savóia, da monarquia recém-destronada. Mas a verdadeira garota-propaganda da casa Fontana foi a atriz americana Linda Christian. Em 1949, seu vestido de noiva para o casamento com o galã Tyrone Power provocou a corrida dos paparazzi a seu casamento, em Roma, e das estrelas de Holywood, de filhas de chefes de Estado e princesas árabes ao ateliê das três irmãs.

 

 

A arte de vestir uma diva

As Fontana começaram bem os anos 50, sendo escolhidas para desenhar os uniformes das comissárias dos DC-4 da Alitalia, com uma sequência de uniformes de diversas empresas e das recepcionistas italianas nas Nações Unidas. Até essa época, as estrelas de Holywood eram vestidas exclusivamente pelos magos do figurino Edith Head e Travis Banton. Página virada, tornou-se símbolo de status a Roma viva e alegre, com as Fontana a quem confiar os figurinos de Ava Garder em A condessa descalça (1954), O sol também se levanta (1957) e Hora final (1959).

Em 1951, o marquês Giovanni Giorgini, usando de seu dinheiro e prestígio, reuniu alguns compradores e jornalistas de moda em Florença, e realizou ali o primeiro desfile no país, com as irmãs Fontana e outros nomes da emergente indústria da moda. O efeito da qualidade da matéria-prima, do corte simples, da criatividade e dos preços mais baixos com relação à França obtiveram resultado imediato, e logo os modelos italianos foram parar em diversas lojas dos Estados Unidos.

, com vestidos de gala e de noiva com decotes profundos, longas saias godê, cintura finíssima e busto em evidência com bordados, botões revestidos um a um e costuras tão bem acabadas que poderiam ser usadas às avessas. Alguns observavam uma certa vulgaridade nos modelos. Mas os valores são outros, no pós-guerra. Não é mais vulgar unir moda e arte em vestidos com motivos de pintores como Nuvolo, Eliano Fantuzzi e Leonardo Stroppa, que assinavam a estampa dos tecidos, ou evidenciar a protuberância de Sofia Loren e Ava Gardner.

Além das estrelas voluptosas, a casa Fontana também atendia ao gosto romântico. Quando das filmagens de Férias Romanas (Oscar de melhor atriz, em 1953), Audrey Hepburn aproveitou para encomendar ao ateliê seu vestido de casamento com o playboy James Hansen. Às vésperas, porém, a atriz desistiu da união, e pediu que a casa de moda doasse o vestido. As Fontana, então, resolveram fazer um concurso pelo rádio, e o vestido acabou sorteado para uma senhorita pobre – e feliz.

As irmãs Fontana fizeram história em um tempo em que não existia o prêt-à-porter, e todos os modelos eram feitos sob medida. Significava que, cada vez que alguma estrela de cinema queria um vestido de gala, de noiva ou enxoval, ia pessoalmente bater à porta do ateliê, na Piazza di Spagna. E não era somente gente de Holywood, mas do jet set internacional, aristocratas e filhas de presidentes. “Certa vez, Jacqueline Kennedy veio para comprar uma série de vestidos”, relembra a sra. Micol. “Mas não se moveu até chegar John Kennedy, que tinha que dar a última palava sobre tudo o que a mulher usava”, confidencia.

Elizabeth Taylor deu muito trabalho à maison. “Ela veio diversas vezes, e acabou fazendo um guarda-roupa completo. Mas nos deixou loucas quando se apaixonou por um vestido, porque fez questão que ele fosse violeta, mas da cor exata de seus olhos”. Entretanto, as irmãs Fontana conheceram bastante das estrelas de cinema para não se perder na fantasia: “Quando elas se despiam para provar as roupas, era como se despissem de seus personagens dos filmes. Falavam de tudo, de seus amores às traições furtivas”. Em 1960, Federico Felini rodou La Dolce Vita, um dos mais festejados filmes do cinema italiano. Na cena em que Anita Ekberg sobe à cúpula da catedral de São Pedro, disfarçada de padre, está usando um modelo das requisitadas irmãs de Roma. Não por acaso, o filme levou Oscar de melhor figurino, em 1962.

Nos anos 60, as Fontana adotaram o prêt-à-porter. Até os anos 70, suas criações penderiam cada vez mais para as linhas tubulares. Antes que a morte de Giovanna, em 2004, encerrasse a carreira criativa das irmãs (Zoe morreu em 1979), ela e Micol foram convidadas, em 2000, para desenhar o uniforme da primeira turma de cadetes mulheres da aeronáutica italiana, como expressão da consideração do país por seu trabalho.

Hoje em dia, a sra. Micol ensina, pessoalmente, diversos estudantes de moda que procuram os cursos oferecidos pela Fundação. A partir deste ano, há vagas também para alunos estrangeiros, que podem se inscrever pelo site www.micolfontana.it.

 

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